Casos registrados em meses historicamente baixos indicam que o vírus encontrou condições favoráveis durante o ano inteiro em partes do Brasil. Especialistas falam em "endemização" e alertam para o risco de colapso nos sistemas de saúde locais.
Junho e julho são, historicamente, os meses de menor incidência de dengue no Brasil. A queda nas temperaturas e a redução das chuvas no Sudeste e no Sul criam condições menos favoráveis para o Aedes aegypti. Mas os dados de 2025 estão quebrando esse padrão.
O Ministério da Saúde registrou 187 mil casos de dengue em junho, número 340% acima da média histórica para o mês. Em estados como Goiás, Minas Gerais e Paraná, os sistemas de vigilância epidemiológica estão em alerta máximo.
Pesquisadores apontam uma combinação de fatores. As temperaturas médias no Brasil estão consistentemente mais altas do que há vinte anos, o que amplia o período de atividade do mosquito. A urbanização acelerada criou novos ambientes propícios para a reprodução do Aedes. E os sorotipos circulantes do vírus mudaram, com o DENV-3 reaparecendo após anos de ausência — o que significa que grande parte da população não tem imunidade.
"Estamos diante de uma transição epidemiológica. A dengue está deixando de ser uma doença sazonal para se tornar endêmica em várias regiões do Brasil." — Dr. Carlos Moreira, Fiocruz
Em Uberlândia (MG), a Secretaria Municipal de Saúde relatou que as UBSs estão atendendo 40% acima da capacidade desde maio. Em Campo Grande (MS), o hospital regional abriu ala exclusiva para casos graves de dengue pela primeira vez em julho.
A vacina contra dengue, aprovada pela Anvisa em 2023, ainda tem distribuição limitada. O Ministério da Saúde incluiu o imunizante no calendário nacional, mas a cobertura vacinal está abaixo de 30% na faixa etária prioritária (10 a 14 anos) na maioria dos estados.
Com a chegada da primavera em setembro e o retorno das chuvas, os especialistas temem que 2025 registre um número recorde de casos no acumulado anual. A projeção da Fiocruz aponta para 6 a 8 milhões de casos, superando o recorde de 2024.
A prevenção continua dependendo, em grande parte, de ações individuais e comunitárias de eliminação de criadouros. Mas pesquisadores alertam que essa abordagem, sozinha, é insuficiente diante de uma doença que está mudando de comportamento.