A taxa de desocupação caiu para 6,8%, o menor nível em sete anos. Mas os dados da PNAD revelam que o crescimento do trabalho por aplicativo e sem carteira assinada levanta questões sérias sobre a qualidade dos empregos gerados.
O IBGE divulgou nesta semana que a taxa de desocupação no Brasil caiu para 6,8% no segundo trimestre de 2025, a menor desde o início da série histórica comparável, em 2012. O número foi celebrado pelo governo federal como evidência de recuperação econômica sustentada. Mas uma leitura mais cuidadosa dos dados conta uma história mais complicada.
Dos 3,2 milhões de postos de trabalho criados nos últimos doze meses, 1,8 milhão — mais da metade — são de trabalhadores por conta própria sem CNPJ. Esse grupo inclui entregadores de aplicativo, motoristas de transporte por plataforma e prestadores de serviços domésticos sem vínculo formal.
A PNAD Contínua, pesquisa do IBGE que serve de base para o cálculo do desemprego, considera "ocupado" qualquer pessoa que tenha trabalhado pelo menos uma hora na semana de referência. Isso significa que um entregador que fez três entregas na semana conta como empregado nas estatísticas.
"O indicador de desemprego mede uma coisa muito específica: se a pessoa trabalhou ou não. Não mede se esse trabalho paga o suficiente para viver, se tem proteção social, se é estável", explica a economista Vera Salomão, do Ipea.
"Temos um mercado de trabalho que parece saudável nos agregados e está doente nos detalhes. O problema não é o desemprego — é o subemprego disfarçado de empreendedorismo." — Vera Salomão, Ipea
Os dados mostram que o crescimento do trabalho informal é mais intenso entre jovens de 18 a 29 anos e entre trabalhadores negros. Esses grupos têm menor acesso a empregos formais e acabam absorvidos pelas plataformas digitais como alternativa de renda.
Uma pesquisa da Fundação Perseu Abramo publicada em junho mostrou que 68% dos entregadores de aplicativo ganham menos de um salário mínimo por mês depois de descontados os custos com combustível, manutenção e celular. Apenas 12% têm algum tipo de previdência complementar.
O governo federal enviou ao Congresso em março um projeto de lei que cria um regime especial para trabalhadores de plataformas digitais, com contribuição previdenciária subsidiada e seguro contra acidentes. O texto foi recebido com críticas tanto pelos sindicatos — que o consideram insuficiente — quanto pelas plataformas, que resistem a qualquer obrigação adicional.
A votação está prevista para agosto, mas o calendário legislativo está congestionado com a reforma tributária e as discussões orçamentárias. Não há garantia de que o projeto será votado este ano.